Quando eu trabalhei com saúde pública, há três anos atrás, eu coordenava um grupo terapêutico para gestantes. Uma das coisas que fazia era chamar profissionais da saúde para conversar com as gestantes, e dentre eles, dentistas. Quando eu ouvia sobre os efeitos prejudiciais do bico (no RS é assim que chamamos) dizia: jamais coloco uma coisa destas na boca de filho meu. Achava que era um ato de calar a boca da criança, um ato de violência. Da mesma forma que disse que não gostava de mamadeira, entre outras coisas. O fato é que a vida me trouxe um tapa de luva bem dado: eu tive que reavaliar meus pré-conceitos.
Gato quando nasceu mamou em livre demanda. O quanto quis, na hora que quis. Ainda falarei a respeito, mas por hora o que importa é dizer que eu me tornei uma mamadeira ambulante para ele. Se fosse apenas para mamar e saciar suas vontades, até aí tudo bem. Mas tinha horas que emendava uma mamada na outra e ele pendurado. E eu cansada. E ele não necessariamente estava mamando.
Eu entendo e sei que o bebê tem necessidade de contato, e uma das formas de saciar sua vontade é a sucção não nutritiva. Porém deveria ser algo prazeiroso para nós dois, pois acredito que a qualidade da relação depende do bem estar dos dois integrantes do binômio mãe-bebê. Eu amava estar com ele, mas estava ficando muito, muito desgastada em ficar com ele pendurado no meu peito o tempo todo.
Relutei - relutamos, pois meu marido também era contra o bico, já tínhamos acordado a respeito. Até que conversei com uma amiga de infância que é odonto pediatra que se rendeu, da mesma forma, ao uso do bico com a própria filha. Ela disse-me, na época, que o mais importante não é o fato de dar o bico, mas sim saber a hora de tirá-lo. Ainda, que era importante atentar para o formato, o material que é feito.
Relutei mais um pouco, conversei com o pediatra...e pedi ao meu marido para comprar o mal/bendito bico.
Quando ele chegou em casa com o cujo, senti que tinha trazido para casa um intruso. Pode parecer besteira, mas eu me senti mal. Elaborei um luto de uma coisa que eu não queria. Mas sentia que podia fazer bem para todos nós.
Era um bico MAM. Colocamos na boca do Gato. Ele cuspiu fora. Confesso que senti um alívio imenso. Decidimos que não iríamos dar. Meu marido até colocou na boca para saber como era. Um gosto horroroso, diga-se de passagem. E o formato não acompanhava o céu da boca, coisa que minha amiga havia falado.
Seguimos na saga do bebê sugador. Até que decidi apostar, mais uma vez, em outra marca. Segui a experiência da mesma amiga e compramos o bico da NUK, que o formato segue o do céu da boca. Ele cuspiu de novo. Mas insistimos um pouco. Deu certo. O que foi bacana é que quando ele estava/tem cólica, é um santo remédio dar o bico com Funchicória. Ele suga, se acalma. Nestes momentos em especial sabemos que temos este recurso para ajuda-lo a sentir-se melhor. Não é à toa que em inglês se chama "pacifier"e em espanhol, "pacificador"...
Confesso que meu coração fica dividido. Gosto e não gosto da ideia. Mas, acima de tudo, me conforta ter um pouco mais de liberdade por ele não estar pendurado o tempo todo, e quando dou colo, é colo com amor, não necessariamente preciso dar o peito.
O que está claro pra gente é que este acessório teve dia para entrar na nossa vida e terá época para sair. Acho muito feio ver criança de 4, 6, 7 anos ou mais com bico na boca. Sem falar do aspecto psico-afetivo que envolve toda a questão.
Assim, até um ano, no máximo 2, Gato chupará bico, se assim quiser. Se será difícil tirar, bom, aí é trabalho nosso como pais dele.
Tomamos todos os cuidados para manter a higiene dos bicos. Sim, temos mais de um para o caso de cair no chão e ter um limpo até que seja fervido. Temos uma caneca onde os fervemos por 5 minutos, todos os dias. E uma caixinha própria para guardá-los.
Esta é apenas uma das muitas verdades que teremos que aprender a abrir mão a cada fase da vida do pequeno. Esta flexibilidade é boa para nós e para ele, no final das contas.
Filho,
Mamãe vai te poupar de ter que entregar o bico para o Papai Noel do Shopping, tá? rs
Te amamos muito, mais a cada dia, o que não é uma novidade.
Com todo amor do mundo, Mamãe.






