segunda-feira, 30 de maio de 2011

Socorro, meu Filho não come!

Filho,

Eu desejo que se tu leres os registros deste blog um dia, não te identifiques  com teus hábitos alimentares aos dez meses de idade. Ou seja, mamãe deseja que tu comas MUITO bem. Mas não precisa ser uma bolinha de tão gordo, tá, filho?

Estás crescendo saudavelmente, és lindo, esperto, inteligente e feliz. Mas teu apetite nos prega algumas peças. Para uma mãe de descendência italiana, onde alimento é sinônimo de afeto, imaginas como fico quando tu cerras a boquinha, viras o rostinho para o lado e não come sequer uma colheradinha da papinha que mamãe faz? Arrasada, filhote, arrasada. E, confesso, internamente irritada. Aí que tudo culminou com a morte de teu avô,  a nossa temporada longe de casa, a tristeza da mamãe e...tua perda de peso. Teu pediatra pediu exame de urina (fizeste xixi no saquinho) para descartar infecção urinária, e não era nada clínico. A questão é que perder peso foi novidade. Tiveste um período ganhando pouco peso, mas perder...

Fiz consultoria com outras mães de filhos que também não comem bem. Foste ao pediatra. Li dicas na internet. Comprei papinha pronta, orgânica, para ver se aceitavas outro tempero que não o meu. Pedi à Tia Alice, amiga da mamãe, para que compartilhasse a papinha que dá à tua amiguinha para ver se aceitavas melhor outro modo de preparo. Ou seja, fiz de "um tudo".

Não sei exatamente o que mudou para que tu estejas comendo um pouco melhor, mas as coisas estão mais tranquilas. Sei que bebês como tu tem fases. Simplesmente comem em um dia, em  outro menos e assim vamos caminhando. Mas quero compartilhar com outras mães, algumas das dicas que eu aprendi. Básicas ao extremo, mas que me deram um norte no auge do meu desespero. Foram o  check list mental que eu fiz para saber se estava errando em algum ponto. Note que são as minhas experiências e reflexões a partir do que vivi contigo. Não há fórmula mágica. E agradeço de antemão a todas as mamães que compartilharam receitas e dicas, de todo coração.

Vamos lá:

- Às vezes é importante lançar mão de "estratégias psicológicas"para tirar o peso da responsabilidade sobre os pais que alimentam o bebê. Quero dizer com isso, que a maior parte das mães que faz a comida do bebê e ela mesmas oferecem, sentem-se pressionadas-culpadas-chateadas-responsáveis pela inapetência do filho. "O que tem de errado com a comidinha que eu faço?". Para isso, vale comprar alimentação alternativa "experimental" para ver se o bebê come. Ou pedir mesmo à outra pessoa que faça a papinha segundo a sua experiência. E, se houver melhor adesão, observar o que tem na papinha que agrada o bebê. São os ingredientes? É a textura? É o tempero?

- Observar qual a consistência da alimentação, especialmente de acordo com a idade do bebê. Quanto maiores vão ficando os bebês, mais "pedaçudas"são as papinhas, e é recomendado que assim o sejam, especialmente para estimular a musculatura responsável pela mastigação. No entanto, observei que tu não gostas muito da sensação dos alimentos maiores na tua boquinha. E ainda, que comidinhas mais secas, não te agradam. Fiz, então, um meio termo: comecei a oferecer alimentação com mais caldo, mais molhada, com pedacinhos um pouco menores. Observei que faz muita diferença.

-Oferecer alimentação da casa para o bebê. É claro que a criança já deve estar maiorzinha. Tentei algumas vezes te oferecer polenta, canja de galinha (com o preparo gaúcho, é claro), feijão preto e aceitaste bem. A diferença esteve em retirar da panela para te oferecer antes de temperar normalmente, pois salgamos muito mais para os adultos do que para ti (o que não é lá muito bom para nós comermos tanto sal, maaaas....)

- Tem coisas que eu não sei fazer direito e não me sinto segura para te oferecer. Para isto, achei ótimo poder comprar comidinha orgânica destes alimentos específicos. Neste sentido, optei por papinhas de fabricação caseira da Empório das Papinhas que continham fígado de boi. Não adianta, detesto o cheiro do fígado. Não gosto de manuseá-lo. Mas sei que é importante. Uma alternativa seria pedir à tua bivó para faze-lo, mas ela está longe. De certa forma é um "luxo" à parte, mas uma vez que outra, tudo bem.

- Variar o cardápio das papinhas. Acredito que toda mãe sente-se mais confiante ao misturar determinados alimentos, porque aprendeu, por trazer da experiência dos seus pais quando com eles moravam, enfim. O que eu percebi é que experimentar receitinhas simples ajuda muito. O que eu fiz foi compartilhar com mães e também observar a composição das papinhas prontas que fizeram sucesso contigo. Desta forma, tive a "receitinha"do que usar, aí fiz eu mesma em casa para ti. Deu certo.

- Observar a temperatura que mais se adequa ao paladar do bebê: ou morna, ou mais fria.

- Observar o horário das refeições. Quando oferecemos alimentação muito perto do horário uma da outra, obviamente não damos tempo para que o apetite esteja aguçado. Para isto, optei por suprimir o leitinho das 10 horas da manhã, para dar tempo de estares com fome ao meio dia. Assim, comes uma fruta com cereal às 9:30 e um suco, e ao meio dia estás com mais fome. Lembrando que isso é bem particular, de criança para criança e de fase para fase.

-Descartar qualquer alteração clínica do estado de saúde do bebê. Segundo teu pediatra, filho, anemia e infecção urinária tem como sintoma a inapetência. Assim como gripes e resfriados ou mesmo nascimento de dentes. Vale consultar o médico para assegurar que não há nenhum comprometimento da saúde física.

- Observar se houve alguma mudança na rotina do bebê no período que circundou a alteração do apetite. Novos eventos e mudanças de rotina influenciam nos hábitos alimentares das crianças. Entrou ou saiu da escolinha? Houve mudança de cuidadores principais (babá, professora, mãe, tia, etc)? Algum evento estressor acometeu a família (morte, nascimento de irmão, viagem dos pais ou cuidadores principais)? e assim por diante. Contigo tivemos a vivência da perda do vovô, como citei anteriormente.

-Procurar dar à papinha o sabor, o tempero característico da sua casa. Aprendi com o teu pediatra que a gente carrega a experiência do paladar da casa da gente, do que comemos do que é preparado em família para sempre. É esse tempero que transmitimos e que, junto com ele, carregamos as referências da nossas origens. Por isso dar papinha industrializada SEMPRE não é lá muito legal (fora o detalhe dos conservantes). Sempre digo que não quero que tu sejas o filho da Nestlé. rs Mas no final de semana, eventualmente, tá liberado.

- Conversar, compartilhar com outras mães, avós, pais que tiveram - ou não - a mesma experiência. Se não resolve, acalma.

- Observei que bebês que mamam no peito tem fases que optam pelo leite da mãe e ponto. Sem recorrer às explicações científicas (pq também não as tenho), é fato. Isso, também, sem levar em consideração o segundo parto que uma mãe vive ao tentar oferecer fórmula infantil (leite em pó) ao rebento. Bebês amamentados no peito, que não são burros nem nada, não curtem muito a alternativa B. Pobres mães com os peitos no chão...

- Sempre que tiver a oportunidade, revezar com alguém a tarefa de oferecer o alimento. Bebês são esponjas e percebem nossa ansiedade, o que influencia na aceitação da refeição. Quantas vezes sentei para te dar papinha tensa, com medo de que não comesses, tentando disfarçar e nada de tu comeres? Aí chegava teu pai, tu abrias a boca e dava tudo certo? (que raaaaaiva!)

- E por último, mas imprescindível em todos os momentos: Paciência. E a crença que um dia vai passar (ou não), mas que é bem possível que seja apenas uma fase.

Como disse, não tem nenhuma grande dica ou solução nestas linhas. Mas foi o caminho que encontrei para me tranquilizar que havia feito de tudo para facilitar que tu comesses melhor. Hoje as coisas estão um pouco melhores, com ressalvas dos dias que me deixas ao léu, com uma colherinha na mão, comendo teus restos já que me ignoras, como mãe que te nutre e te cuida! (choro dramático no plano de fundo)

Paaaaaaaieeee!Eu quero Mc Donald's!!!!!!

Com amor,

Mamãe

PS: Isso não faz de mim uma mãe que o filho come mooointo bem. Sendo assim, continuo aceitando sugestões :o)


quinta-feira, 12 de maio de 2011

Aderimos ao #mamaçovirtual

Filho,

Dentre aquelas inúmeras coisas que um dia eu vou te explicar, cabe também algo inacreditável.
Amamentar em público já foi motivo de represálias, acredita? Há quem ache o gesto obsceno. O ato de amamentar acompanha a história da humanidade, mas segue também influências culturais. Pergunte a um índio o que ele acha da amamentação. É muito capaz de ele nem compreender a tua pergunta, porque faz parte conjunto de valores da sua cultura.

Mas o mérito aqui não é este.

Vim registrar o que a amamentação representou para o nosso vínculo. Vim falar sobre o que isso significa para mim e o que eu interpreto como significado que tem para ti.

Tens quase dez meses. Sempre desejei te amamentar, desde a gravidez. Tive medo de não ter leite, de que tu não pegasses o peito. Deu tudo certo, felizmente.

No início doeu MUITO. Eu precisava ficar calada, concentrada a cada mamada tua, logo que nasceste, porque doía demais. E assim eu conseguia suportar a dor. Fora isso, desenvolvi uma dor absurda na coluna cervical pois achava que devia ficar te olhando nos olhos a cada mamada, já que sabia que era bom para o vinculo e tal (exagerada tua mãe,não?) E tu vivias pendurado no peito, então imagine só!

Fora que até hoje tu não dormes a noite inteira e acordas para mamar. Uma noite de sono? O que é isso?
Sair à noite? Sem ti? Até hoje nossas saídas contemplam as horas que tu acordas para mamar.

Mas eu vou te dizer com toda segurança do mundo: para mim foi muitíssimo importante e especial ter a oportunidade de te nutrir pelo peito. Eu, que sou mãe meio concreta, tive na amamentação tudo que eu precisava para me sentir ligada à ti. A troca de olhares, o carinho, o cheiro, o toque - tudo que eu poderia fazer com a mamadeira, mas que para mim, foi importante que fosse assim.

E eu vejo os reflexos na nossa relação. O apego que tens comigo, a segurança... E para mim também! Tem coisas nestes nossos momentos que eu queria guardar, registrar para sempre, como o barulhinho que tu fazes ao pegar o peito, a tua carinha, o movimento da bochecha que eu acho lindo. Somos muito apegados e eu creio que se deve também a estes momentos.

Fora toda a praticidade, pois saímos, passeamos e não temos a preocupação se vai faltar alimento. De alguma forma posso te consolar apenas estando contigo. És saudável, forte, nunca ficaste doente, exceto resfriado. Tenho certeza que em grande parte devemos isso ao leite materno.

Embora eu saiba que em algum momento essa nossa rotina vai acabar, e tu irás desmamar, sei que cumpri uma missão muito nobre e especial. E sei que será muito mais difícil para mim do que para ti. É algo que eu preciso trabalhar dentro de mim para que não seja mais dolorido do que já vai ser, naturalmente. Mas tem o outro lado: precisamos retomar a vida e precisarás crescer. É cansativo acordar de madrugada para te amamentar. Não posso mentir e dizer que acordo feliz e que é um momento mágico.  Não o é.

Mas tirando as madrugadas, posso garantir que é um prazer poder te amamentar. Enquanto for possível te nutrir, assim o farei. Mas já estou me preparando para que, quando o dia do desmame chegar, não seja tão sofrido assim. Nosso vínculo já é forte o suficiente para abarcar novos códigos na nossa comunicação que não apenas o momento da mamada.

Aqui deixo uma foto registrada deste momento especial que marcou minha vida enquanto mulher e mãe:

Por isso e por muito mais que não acredito que amamentar tenha qualquer quê de obcenidade ou de constrangimento. É um ato de cuidado com a criança e, mais do que compreensão, merece respeito. De desserviços nossa sociedade já está farta.

Com todo amor do peito,

Mamãe.

domingo, 1 de maio de 2011

Adeus, Vovô Gato...

Filho,

Hoje faz uma semana que teu vovô nos deixou. Faz 7 dias que ele não está mais aqui conosco.

Teu vovô tinha um montão de problemas de saúde. E era muito teimoso. Decidiu viver a vida do jeito que ele queria - e ainda dizia: "prefiro viver a vida do jeito que eu quero e viver menos tempo do que viver muito me privando das coisas". E assim o fez. Diabético, teu vô não ouvia ninguém quando o assunto eram suas paixões: Pistache, Bubaloo, Eskibom, sorvete com nozes, Mentex, um bom vinho, uma boa comida. Festeiro como só ele, foi muito boêmio. Adorava reunir os amigos e sempre havia muita bebida e muita comida. Ao mesmo tempo que era muito bem quisto, era tímido, mas quem o conquistasse tinha seu lado generoso ao seu dispor. Amava ver a sua família reunida. Cresci ouvindo que nosso bem maior é a família. Ele inventava pretextos para ter todo mundo reunido: um almoço, um bom churrasco, um jantar...

Tenho lembranças maravilhosas e muito saudáveis da minha infância. Talvez seja aí que a falta dele me dói tanto, pois este pai brincalhão, crianceiro, não te verá crescer. Sempre gostou das crianças já numa fase maior, quando começam a falar e interagir com os adultos, de forma que ele pudesse dar e receber algo em troca. Na fase que o conheceste, ainda bebê, com pouco jeito te pegou no colo e se orgulhou do quanto eras parecido com ele. Olhava para ti e dizia: "engraçadinho, ele!" Era seu jeito de lidar com a tua fragilidade de gente pequena.

Meu pai, teu avô, brincava comigo e com minha sobrinha mais velha (temos 5 anos de diferença e crescemos juntas) articulando jogos, adivinhações e o que mais desse na telha. Amavamos viajar com ele, pois passavamos o trajeto todo em gincana. O maior barato! Ganhavamos dinheiro para ir às festas típicas aqui do RS: Oktoberfest, Festa da Uva, do Feijão, do que fosse. Aí nos divertíamos escolhendo os presentes para levar para casa. Tenho doces lembranças desta época.

Ele era um homem tão forte, tão decidido, tão voluntarioso, que teve épocas que eu tinha medo dele. Sua era voz imponente, quando gritava, me dava calafrio na espinha. Morria de medo quando ele fechava o semblante e levantava a voz... Mas o medo se transformou em respeito. Teu avô sempre foi um homem muito justo, muito correto, empreendedor, e brincavamos que tudo que ele tocava virava ouro - era um visionário. Admiro teu avô por traçar metas e seguir em frente, sem medo do que encontraria pelo caminho. Tão destemido e determinado que chegava a ser inflexível, genioso, turrão. Por dentro um homem carente, muito sensível.

Por isto tudo que eu carrego dentro de mim em relação ao que ele me deixou como exemplo para a vida, meu filho, eu desejo que herdes o que ele tinha de bom. Ainda vou te contar muitas histórias, muitas passagens dele para que tenhas dentro de ti um pouquinho do que ele foi para todos nós. E desejo que o legado de vida que ele deixou germine o teu coração de homem bom, honesto e generoso.

Como tu ainda és muito pequeno, não tens dimensão do que estamos vivendo. Mas eu sei que sentes estas mudanças todas. Não estamos na nossa casa, tu sentes a tristeza no olhar da mamãe e capta toda densidade do humor de todos nós. És uma pequena esponja e sentes tudo. Queria te poupar disto tudo, mas como bem falou teu papai, isso tudo faz parte da história da tua vida.

Sofro muito pelo vazio que teu vovô deixou. Pela poltrona vazia em que ele via TV, pelo silêncio, pelas roupas, pelas coisas dele que ficaram e que carregam muitas memórias. Temo por esquecer seu cheiro, sua voz, seu sorriso...Mas hoje consegui lembrar dele sorrindo, e é um grande passo.

Agradeço a Deus por tu o conheceres, mesmo que a convivência de vocês tenha sido breve. Para mim foi uma oportunidade especial poder te apresentar, meu filho, ao meu pai.

E ele vai, com toda certeza, nos acompanhar lá do céu. A minha estrela mais brilhante e iluminada tem um nome, e responde por Paulo Cesar.

Fica com Deus, Vovô Gato. A gente sempre vai te amar e te carregar com a gente, aonde quer que a vida nos leve e aconteça o que acontecer.

Com muito amor, saudade e pesar,

Mamãe.