Caíste da minha cama. Choraste, mas acredito que foi de susto. Eu gelei, só pensava na hora em te consolar e ver se tinhas te machucado. Na sequência liguei para teu pediatra, que, bem humorado, depois que me acalmei, disse que iria me condecorar com uma medalha.
A postura dele foi acolhedora, muito mais por ser tranquila e ao mesmo tempo segura. Mãe, por definição, tem a mania da "auto culpabilização", e não precisa de alguém que aponte o dedo e reforce o sentimento de incompetência. Ter dito que era normal e que eu deveria apenas observar, fez toda diferença. Ainda escrevo sobre isso. (nota mental)
A questão é que este tombo me fez pensar sobre algumas coisas, acredito que importantes. Primeiro, pensei nas inúmeras situações que virão pela frente. Quantos hematomas, arranhões, pontos, fraturas, entre outras, irão acontecer, por ventura. Outros eventos da vida que te trarão muito sofrimento, como quando se levares um fora da namorada, se fores demitido, se não passares em uma prova, se fores para o quartel e não quiseres (Notem o "se". Mãe protege, não tem jeito).
Situações das quais não terei absoluto controle. Lembrei que crescer tem implicações: às vezes dói. Penso que dói mais nos pais que em vocês, na maior parte das vezes. Mas dói. E preciso me adaptar à ideia de que posso minimizar os riscos, mas não anulá-los. Até porque não te faria bem.
Sinto certo desconforto em ouvir sobre as "crianças bolha", que vivem superprotegidos pelos pais e que diante da necessidade da vida de dar conta das adversidades, quando não os tem por perto, não sabem o que fazer. A intenção destes pais é tão genuína, tão especial, que não contesto. Mas penso nos efeitos que isso tem a longo prazo, com marcas impressas a sangue frio na personalidade destes adultos em que estas crianças se transformarão. Adultos inseguros, baixa capacidade de resiliência, ou seja, sem jogo de cintura para enfrentar as agruras da vida.
Aí me deparei contigo querendo engatinhar, se arrastando, mas com muita dificuldade. Me toquei na hora que eu não estava facilitando este processo! No intuito de te deixar seguro, empatei tua vida! Estavas lá, em cima do tapetinho (de PVC, MDF, qual, gente? rsrsrsrsrs), de meia, com calça comprida, casaquinho, patinando, patinando, patinando...Seguro que era uma beleza, mas PATINANDO!
Caiu a ficha. Teu primeiro tombo deu sequência a um processo de destruição em massa, provocado por mamãe: arregaçada a calça e a blusa, sem meia, tu foste jogado ao mundo (o chão), para explorar o teu mais novo desafio. Logo estavas batendo a cabecinha (de leve, gente), chorando, voltando a sentar, voltando a se arrastar e assim por diante. Bem que te rendeu uma boquinha inchadinha porque teus dois dentinhos (não registrei que já és um ser dentado, meu Deus?!!!!!) bateram no lábio!
Resumo da ópera, acredito que o papel dos pais é muito mais do que complexo: facilitar na medida mais próxima do ideal a exploração dos riscos e proteger também na medida que mais se aproxima do necessário. Não ouso dizer que atingiremos esta meta, até porque tudo é tão dinâmico, muda tudo o tempo todo, que quando estivermos preparados para um desafio, mudará a fase e virão outros. Mas precisamos de um norte, sabe?
E é por aí, filho. Seguimos aqui, incentivando o teu desenvolvimento com tuas descobertas, com o coração numa mão e na outra os abajures para que não caiam na tua cabeça.
![]() |
| Olha o perigo aí, gente! |
Crescer dói, mas é um barato necessário!
Com amor,
Mamãe.
