sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Cenas de uma realidade surreal

Cena 1 - no salão de beleza

-Oi, vim fazer as unhas.
-Ah, sim, por ali.

(depois de uma hora: pé esticado, uma mão na mão da manicure e outra embalando o carrinho)

- Ele tá choramingando por que está com fome.
-Não, ele mamou antes de sair de casa, ele tá é cansado.
-Sei bem por experiência própria, é fome. Quando minha filha tinha três meses, chorava muito, aí dei caldinho de feijão e ela dormiiiiiu feito um anjo. A partir dali, começou a comer que era uma beleza! Viu, aposto que seu leite é fraco.

(aqui, um sorriso amarelo com náusea como resposta, seguido de um olhar fulminante)

Conclusão: Transeuntes, manicures, cabeleireiras e afins sabem mais de nutrição infantil do que a Sociedade Brasileira de Pediatria.

Cena 2 - no mesmo ambiente

-Que linda sua filha!
-É menino, chama Rafael.
-É menino? Ah...  ELA chora muito?

Conclusão: falta de bom senso é artigo raro.

Cena 3 - no mesmo ambiente (sim, durou uma eternidade)

(empurrando carrinho, de costas, por que Gato estava resmungando quando virado para mim. Entra uma louca, digo, mulher)

-Ah, não está funcionando você embalar, ele está com os olhos beeeem abertos.
-Não é para dormir, senhora.
-Se ficar embalando assim, ele vai ficar mimado. não está certo isso, com meus filhos... (blá, blá, blá, blá - 25 minutos de explicação referentes a como criar um filho perfeito)
-Ahã.
-E olha como ele balança os bracinhos, ele é bem nervoso. (leia-se, aqui, criança de três meses balançando os braços de acordo com as competências da etapa de seu desenvolvimento neuromotor) - (bonito isso, não?)

Conclusão:  O conhecimento técnico de transeuntes, manicures e cabeleireiras não se esgota ou restringe: também sabem muito sobre desenvolvimento neuropsicomotor e comportamento.
Psicólogos, por que estudais?

Cena 4 - no cartório


(saindo da cerimônia de casamento civil de uma amiga querida)

-Olha que lindo o Rafael!
-É, amiga, viemos te ver e já estamos indo. Rafa está cansadinho, já, olha como está com sono!

(de repente vem uma mulher, do nada, convidada da noiva e coloca as DUAS MÃOS nos MEUS ombros)

-Pára!
-Como?
-Pára! Não balança ele. Não precisa ficar balançando assim.

 (aqui, cara de choque e incredulidade. Viro para o pai do Gato, na mesma hora, dando as costas para a mulher)

-Isso aconteceu?
-É, releva. É louca.
-Moça, deixa eu segurar o bebê?
-Ele tá com sono, com licença. Vamos, amor?

(vácuo absoluto e necessário, e vamos embora)

Conclusão: não bastasse a educação e cuidado coms eu filho não lhe pertencer, seu corpo também passa a ser de domínio público.

Cena 5 - no elevador

-Bom dia.
-Bom dia.
-Qual andar?
-Térreo, obrigada.
-Que lindo!Como chama?
-Rafael.

-Oi, Rafael, vai tomar um solzinho?
-Pois é.
-De quem ele é?
-Como?
-De quem é esse bebê?
-Meu...
-Ah...

Conclusão: Mãe vestida de branco é confundida com babá. Não bastasse a indiscrição das pessoas, o juízo passa também pela vestimenta, categorizando as pessoas pela cor da roupa.
Sindicato de classe, fiscalizai!

                                                  ---

Considerações finais: Paciência deveria ser comercializada sem retenção de receita. Melhor, onde quer que você fosse, deveria ter cápsulas à disposição, para você colocar na bolsa, na necessaire, onde fosse mais conveniente!
 Imagine a sala de espera do dentista. Vem aquela senhora na sua direção com aquela mão cheia de dedos pra cima do seu filho. O que fazer? Quase nada! esticar a mão para aquele baleiro à sua direita que contém balinhas de paciência como cortesia. Tomou? Pronto, passou!Diga, há algo mais saudável para sua saúde mental? Melhor que uma bazuca, vai...

Dá uma aula de indiferença pra eles, filho!
Com toda tolerância,  jogo de cintura e heroísmo,

Mamãe.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A construção do nosso vínculo

   
Filho,

Hoje tu fazes três meses de vida. Coincidiu com o dia da blogagem coletiva, e o tema é Vínculo. Coincidência? :o)

Antes de escrever, eu olhei o videozinho que teu pai fez do teu parto. Posso garantir que o vi com outros olhos. Me emocionei de forma diferente. 

É a primeira vez que eu olho o vídeo e te vejo nas imagens. Quando digo que te vejo, me refiro ao que você realmente é, ao que conheço de você nestes três meses de vida. Antes eu olhava as fotos e enxergava o meu desejo de ter um filho, o que eu esperava que ele fosse, o esboço de uma relação, que estava mais pautada nas idéias que eu tinha a teu respeito do que necessariamente quem você era.

Difícil explicar... Mas o que enxergo hoje ao fazer esta mini retrospectiva é fruto da nossa convivência, das nossas descobertas juntos, do conhecimento que eu e tu estamos adquirindo a cada dia, um a respeito do outro.

Hoje eu vejo as fotos e vejo o meu filho Rafael. Que eu reconheço o seu choro de fome, de cansaço. Que eu sei como provocar um riso, das coisas que lhe chamam a atenção e do que não gosta. Sei a forma como gostas de dormir e como resmungas se não estás daquele jeitinho. Aprendi contigo que nem sempre as coisas tem explicação, e aquele choro sem motivo às vezes não tem motivo mesmo! E que não vou ajudar em nada se insistir no meu velho modo de ser, tentando fazer caber nas minhas explicações racionais pra tudo nesta vida...

Quando eu penso no que ouvia das outras mães que "quando o meu filho nasceu senti o maior amor do mundo", lembro da sensação de culpa, de estranhamento por não entender o que diziam. "Não amo meu pequeno filho assim, será que sou uma mãe desnaturada? Será que por eu não amá-lo mais que a tudo nesta vida eu não sou digna da maternidade?" 

Hoje eu compreendo que eu não sentia tudo isso porque eu precisava te conhecer. Nós precisávamos deste tempo para nos reconhecermos um no outro. Nós precisávamos do nosso tempo para estabelecermos nosso vínculo de amor, de cumplicidade - e de estranhamento também. Uma coisa é fato: a gente não ama aquilo que não conhece.

Hoje eu te amo pelo que construímos. Te amo pelo vínculo que temos. Te amo pela sintonia que desenvolvemos em saber o que cada um está sentindo. Te juro que das vezes que chorei contigo no meu colo, a tua carinha de "interrogação" me fazia acreditar que, mesmo não compreendendo o que acontecia, tu compartilhavas daquele meu momento.

Eu fico imaginando o que eu direi daqui a um aninho, daqui a três, dez, vinte anos, quando o vínculo terá sido alimentado por muitos outros fatores, por outras descobertas, aprendizados... O que eu sei é que cada dia me surpreendo com a capacidade de amar  sempre mais, dia após dia. 

Não imagino minha vida sem ti, meu pequeno, imenso filho. A grandeza do sentimento que tenho por ti me dá força, me dá motivos para ser melhor, pra querer mais nesta vida, para ir muito mais além. Contigo e por ti, Rafa, tudo faz sentido.

Obrigada por me transformar em um ser humano melhor. Obrigada, mais uma vez, por permitir que eu aprenda, da forma mais doce e generosa, as coisas que este plano maior tem para mim, para nós.

E não canso de repetir...Obrigada por ter me escolhido como tua mãe. Faz três meses que a minha conexão com Deus também existe fora do meu peito.






Com todo amor do mundo,

Mamãe.


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Os peitos são meus e quem decide sou eu!

Falar sobre amamentação tem sempre um quê de polêmica associada. Seja por opiniões divergentes, por falta de informação ou por questões culturais.

O fato é que eu decidi desde antes do meu filho nascer que eu o amamentaria exclusivamente até os seis meses. Me informei o suficiente para ter certeza que era o melhor para ambos e porque eu precisava me munir de argumentação para sustentar a minha decisão. Mas para os outros? Não, definitivamente os outros não estão nem aí para suas argumentações. Suas crenças são tão solidificadas que não há espaço para uma posição contrária à sua ou mesmo um aprendizado novo. Suas experiências são sempre as mais corretas. Quem é mãe e deseja/desejou amamentar exclusivamente sabe do que eu estou falando. Tente convencer alguém que introduziu um chazinho, uma frutinha aos 4 meses que não é a melhor coisa para o bebê, depois conversamos.

A questão nem reside no que acabei de dizer, até porque sou da teoria que cada um com os seus problemas, suas decisões, seus acertos. Ademais, ninguém sabe do contexto de vida que cada um vive para chegar até onde está, pensar o que pensa. Respeito é muito importante justamente por isto.

O fato é que comprei uma briga grande para garantir ao meu pequeno filho que ele fosse aleitado até os seus seis meses. Estamos chegando à metade do caminho, graças a Deus. E a mim. E ao pai dele. E ao bebê, é claro.

Sei das implicações desta decisão, especialmente porque vem atrelada a uma série de outras mudanças: voltar ou não a trabalhar, ter claro que meu corpo permanecerá diferente enquanto amamenta-lo (quem sabe os efeitos da prolactina no corpo da mulher entende), permanecer em uma relação de relativa dependência com o bebê, entre outras. É claro que cada uma destas alternativas tem os seus dois lados da moeda. E, para mim, pesam os prós.

Existe uma onda muito forte a favor do parto normal, da amamentação exclusiva, como comentei. No entanto, sou terminantemente contra qualquer radicalismo na defesa de uma posição, especialmente porque segrega pessoas, influencia de maneira negativa e deixa muitas mulheres acuadas, desempoderadas. O que será da mulher que não se sente apta a amamentar seu filho? Vai faze-lo a contragosto, somente para se sentir parte do universo das mães que amam seus filhos? E o valor afetivo atribuido? Melhor amamentá-lo com raiva, contrariada do que oferecer mamadeira com amor? A mulher que tem parto normal é mais poderosa que aquela que se sente segura para oferecer afeto ao seu filho quando planeja o parto e marca a data?

Acredito que "só sabe a dor dos calos quem veste os seus sapatos", como diz um ditado popular. Liberdade de expressão de idéias, de sentimentos, de atitudes. Mas com respeito.

Por isso que digo que eu vou, se assim eu puder, amamentar meu Gato até onde eu achar que é importante. Porque devo. Porque posso. Porque é bom para nós dois.

A favor do respeito às opiniões e decisões de cada mulher, de cada pessoa. Porque somos diferentes e é isto que nos complementa.


Primeira mamada do Gato


Com muito amor.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Visitando a Família da Mamãe

Filho,

Neste feriadão, 12 de outubro, fomos ao Rio Grande do Sul visitar a família da mamãe. No teu nascimento, filho, vovó, titia e bivó vieram te conhecer. No entanto a família extensa não pode vir, e nem o vovô conheceste! Demos um jeitinho de ir antes que terminasse o ano, apesar do anseio de mamãe em viajar contigo de avião. Mas foi lendo estas dicas sobre viagem com pequenos e motivada pela saudade enorme da família que resolvemos ir logo.

Sobre a viagem em si:

Foste um lord, tanto no aeroporto como no avião. E também na viagem de carro até a cidade que vovô mora, que fica a 1h e meia de Porto Alegre. Mesmo com o atraso do vôo, ficaste bem tranquilo, dormindo no colo da mamãe. No avião, atentamos para a dica da tua Titia Sônia para oferecer a chupeta na decolagem, para diminuir o desconforto da pressão devido à altitude (ponto para a chupeta). Poderia oferecer o peito, mas achei mais pratico dar o bico, especialmente porque estava ansiosa com a viagem. Tu dormiste quase todo o trajeto!

Ficamos quatro dias com a família da mamãe!

Coisas especiais que marcaram a tua primeira ida à Terra da Mamãe:

Ver a alegria da tua vovó te dando banho, e tua bivó acompanhando,


Te apresentar para a família toda e perceber a emoção nos olhos das tuas tias, primas e avós,


Reunir 4 gerações da família,


Reunir todo mundo,


Comer um legítimo café colonial (engordar MAIS uns quilinhos, sabe?)


Poder ver se realizar a tradicional bênção em casa, feita pela Tia Paula,


Receber carinho de quem mamãe viu nascer,


E de quem criou e cuidou da mamãe,


Realizar o sonho de levar o filho para seus pais,


Poder agradecer mais uma vez por tudo,



Poder brincar,


E ter a certeza maior do mundo que concebeu o elo entre os maiores amores do mundo!


Hoje o coração está cheio de alegria pelos momentos vividos, mas também um pouco sensível pela tristeza da distância que separa tanta gente que nos ama, filho. Voltar para a rotina de nossas vidas, nesta São Paulo tão fria, tão solitária, dá um aperto no coração. 

Senti como é bom poder compartilhar as tuas conquistas, o teu jeito, a nossa rotina. Pude experimentar o que é ter uma rede de apoio que auxilia nas atividades mais básicas do dia-a-dia: ter quem te cuide enquanto tomo um banho, tomo um café, saio por alguns minutos - e se sentir segura em todo momento, pois estás bem assistido! Como faz falta a família por perto! Como é bom ter uma avó que, enquanto te cuida, te ama! Difícil voltar para a realidade da insuficiência de apoio. Mas estamos juntos - e isso é o que importa.

Na ansiedade para o Natal, que reunirá todo mundo novamente, vamos rememorando tão bons momentos, tão cheios de amor! Família briga, se desentende, mas sempre ampara! Ter voltado para casa contigo no colo, filho, teve um novo sentido, todo especial: poder sentir o que é ser filha e mãe!


Um detalhe especial: voltaste "falando" muito! Diálogos inteiros de buááá, áááá, aguuuu!! Uma alegria sem fim.

E minha gratidão eterna por tudo isto.

Com amor, Mamãe.