segunda-feira, 14 de março de 2011

Do dilema de voltar ao trabalho

Filho,

Um dia tu vais entender que mulheres são seres muito complexos. Não sei se isso é bom, ou péssimo mas terás uma escola na tua própria casa, já que tua mãe é um exímio exemplar de insanidade e inconstância deste gênero tão complicado.

Desta vez me refiro ao quanto somos ambivalentes nos nossos sentimentos e pensamentos. Do quanto queremos tudo, depois não queremos nada e do quanto conseguimos não entender nada do que estamos sentindo e disto tirarmos uma experiência única de aprendizado (eu não disse que era dificiO?)

Vamos facilitar agora, já que pude dar uma amostra grátis do quanto é complicado sentir tudo isso aqui dentro do peito. Estou falando do que ando sentindo a respeito deste momento que vivo em casa. Contigo, feliz, te vendo crescer, mas em casa, longe do trabalho.

Mais uma vez repito que isso tudo não tem nada a ver contigo, com meus sentimentos por ti. Talvez seja mais um desabafo neste canal que se abriu, inicialmente para falar para ti em que hoje interajo com muitas mães, que me ajudam muito com suas experiências e seus olhos atentos.

Feito o lembrete, digo que agora que o mestrado acabou (nem acredito nisso....), comecei a me questionar se consigo ficar muito tempo longe do trabalho.

Primeiro pela questão do dinheiro. Uma renda em casa é diferente de duas, por mais que o salário de profissional de saúde seja uma vergonha. É diferente porque é uma conta de telefone a mais, seguro de carro a mais, anuidade do conselho de classe a mais....
E, além disso, não consigo me sentir confortável na pele de uma mulher que procura nos olhos do marido o termômetro para saber se essa ou aquela necessidade feminina de consumo pode ou irá pesar no orçamento da casa. Senti isso comprando um sabonete da Natura este final de semana. Veja bem onde estou chegando... Isso não é legal.

E não tem nada a ver com olhares de reprovação do teu pai, porque ele não é assim. Tem a ver comigo.
Eu gosto de trabalhar. Eu gosto de comprar o que quero, na hora que quero. Mas é muito mais que isso: quero de volta a sensação de que contribuo com o orçamento do lar. Mesmo que seja para acrescentar uma comprinha no supermercado. Mas me sinto confortável nesta postura. Somos uma família e optamos por lidar com dinheiro conjuntamente. Isso não mudaria. Mas agora, escrevendo pra que pagar terapia me dou conta que tem a ver com o sentimento de contribuir, de ajudar.

Semana passada abri mão de um emprego tentador, do ponto de vista da atividade que iria desempenhar. Deu aquela coceirinha, sabe? Deu vontade de voltar.

Mas ponderei. Me propus a ficar contigo até teu primeiro ano ou quando pudesses entrar na escolinha do condomínio (aceitam quando a criança já anda). E quando tivéssemos o mínimo de estrutura (somos só eu e teu pai), eu procuraria as vias para esse retorno.

O que acontece é que eu não me sinto preparada emocionalmente para te deixar e retomar essa vida em paralelo. Acredito que nenhuma mulher se sente preparada por inteiro. Mas, para mim, (a outra metade de mim) não é hora ainda. Sei que fará falta para ti e para mim.

Que sentimento estranho! Que ambiguidade, sabe?

 Quem julga que ficar em casa é moleza, não sabe o que é isso. Admiro horrores as mulheres que tem a sua profissão de mãe em tempo integral, que cuidam da casa, da saúde da família, da alimentação. Seja por escolha ou por necessidade. Não é bolinho, não! É muito, muito, muito cansativo e requer muito jogo de cintura. É tarefa para mulheres de ouro, viu?

Tenho a possibilidade de voltar a atender, em poucos horários, mas ir retornando....Acho que é a saída. O meio do caminho entre duas decisões que envolvem muitas mudanças. Então ir dando atenção a este sentimento e ir trabalhando-o até o momento de voltar por inteiro. Já é quase julho! Já, já chega a hora. E eu sei que oportunidades surgirão não me pergunte daonde, mas eu sei que surgirão.



O que mais faz sentido é o que sinto quando estou contigo. Toda vez que me pego olhando para ti, hipnotizada, me emociono profundamente. Que milagre da vida que tu és, meu filho! Quantas escolhas saudáveis eu fiz para te ter! E eu tenho certeza que tu me transformaste em algo melhor inclusive para os trabalhos que eu desempenharei no futuro próximo.

Reconhecer o que sentimos é o primeiro passo para acomodar as dores e os amores dentro da gente.
Agora já está tudo bem.
Obrigada por emprestar o teu espaço para estes sentimentos de mãe.
Te amo ainda mais!
Dá pra sentir o quanto te amo?


Com amor,

Mamãe

sexta-feira, 4 de março de 2011

Entre os tombos e a superproteção

E aí, filhote, que tu caíste teu primeiro tombo. Não sei se vou esquecer a imagem e o som que eu ouvi quando tu capotaste no chão do meu quarto! Foi o "TUM" que mais doeu na minha alma.

Caíste da minha cama. Choraste, mas acredito que foi de susto. Eu gelei, só pensava na hora em te consolar e ver se tinhas te machucado. Na sequência liguei para teu pediatra, que, bem humorado, depois que me acalmei, disse que iria me condecorar com uma medalha.

A postura dele foi acolhedora, muito mais por ser tranquila e ao mesmo tempo segura. Mãe, por definição,  tem a mania da "auto culpabilização", e não precisa de alguém que aponte o dedo e reforce o sentimento de  incompetência. Ter dito que era normal e que eu deveria apenas observar, fez toda diferença.  Ainda escrevo sobre isso. (nota mental)

A questão é que este tombo me fez pensar sobre algumas coisas, acredito que importantes. Primeiro, pensei nas inúmeras situações que virão pela frente. Quantos hematomas, arranhões, pontos, fraturas, entre outras, irão acontecer, por ventura. Outros eventos da vida que te trarão muito sofrimento, como quando se levares um fora da namorada, se fores demitido, se não passares em uma prova, se fores para o quartel e não quiseres (Notem o "se". Mãe protege, não tem jeito).
Situações das quais não terei absoluto controle. Lembrei que crescer tem implicações: às vezes dói. Penso que dói mais nos pais que em vocês, na maior parte das vezes. Mas dói. E preciso me adaptar à ideia de que posso minimizar os riscos, mas não anulá-los. Até porque não te faria bem.

Sinto certo desconforto em ouvir sobre as "crianças bolha", que vivem superprotegidos pelos pais e que diante da necessidade da vida de dar conta das adversidades, quando não os tem por perto, não sabem o que fazer. A intenção destes pais é tão genuína, tão especial, que não contesto. Mas penso nos efeitos que isso tem a longo prazo, com marcas impressas a sangue frio na personalidade destes  adultos em que estas crianças se transformarão. Adultos inseguros, baixa capacidade de resiliência, ou seja, sem jogo de cintura para enfrentar as agruras da vida.

Aí me deparei contigo querendo engatinhar, se arrastando, mas com muita dificuldade. Me toquei na hora que eu não estava facilitando este processo! No intuito de te deixar seguro, empatei tua vida! Estavas lá, em cima do tapetinho (de PVC, MDF, qual, gente? rsrsrsrsrs), de meia, com calça comprida, casaquinho, patinando, patinando, patinando...Seguro que era uma beleza, mas PATINANDO!

Caiu a ficha. Teu primeiro tombo deu sequência a um processo de destruição em massa, provocado por mamãe: arregaçada a calça e a blusa, sem meia, tu foste jogado ao mundo (o chão), para explorar o teu mais novo desafio. Logo estavas batendo a cabecinha (de leve, gente), chorando, voltando a sentar, voltando a se arrastar e assim por diante. Bem que te rendeu uma boquinha inchadinha porque teus dois dentinhos (não registrei que já és um ser dentado, meu Deus?!!!!!) bateram no lábio!

Resumo da ópera, acredito que o papel dos pais é muito mais do que complexo: facilitar na medida mais próxima do ideal a exploração dos riscos e proteger também na medida que mais se aproxima do necessário.  Não ouso dizer que atingiremos esta meta, até porque tudo é tão dinâmico, muda tudo o tempo todo, que quando estivermos preparados para um desafio, mudará a fase e virão outros. Mas precisamos de um norte, sabe?

E é por aí, filho. Seguimos aqui, incentivando o teu desenvolvimento com tuas descobertas, com o coração numa mão e na outra os abajures para que não caiam na tua cabeça.


Olha o perigo aí, gente!

Crescer dói, mas é um barato necessário!

Com amor,

Mamãe.