Filho,
Carrego no peito um sentimento muito ambivalente. Queria que o tempo congelasse para te ter pequenininho para sempre. Às vezes sofro quietinha, escorrem as lágrimas porque sei que estes nossos momentos são muito passageiros. Sei que muito em breve tu vais querer explorar o mundo com tuas próprias perninhas, que não vais querer mais colo pois cada descoberta vai ocupar muito do teu tempo e da tua vontade. Me emociono e sofro por imaginar que este é um momento tão único, tão precioso e tão efêmero! Cada vez que alguém me diz "curte muito porque passa muito rápido", é como se eu recebesse uma responsabilidade que pesa 500 kg.
Será que estou sendo capaz de curtir realmente meu pequeno filho? Será que estou retendo na memória os bons momentos do teu desenvolvimento?
Ando muito cansada. Eu sei que a ambivalência vem quase toda disso. Quando acordas de madrugada querendo brincar, queria acelerar o tempo. Te fazer crescer mais e te tornar mais independente, pra eu dormir e ter uma única noite de sono para acordar mais leve, mais bem disposta.
Meu coração se aperta em culpa por desejar isto! Tanto te quis!Tanto idealizei estes momentos ao teu lado!
Queria às vezes desaparecer. Queria ter o mínimo de tempo tomando um banho demorado, sair sem hora pra voltar... Queria não ter que cumprir com a responsabilidade de terminar um mestrado em dois meses...
Eu sei que é exaustão. Para mim esta fase que estou vivendo é como dirigir 24, 48, 72 horas sem parar. Atenção focada, cérebro em alerta o tempo todo, não desliga, não descansa. A rotina com um bebê pequeno exige atenção full time. Quando acordado, atenção para que não se machuque, para reconhecer suas necessidades. Quando dormindo quem sabe o que é ter uma babá eletrônica no ouvido a noite toda entende: cérebro em vigília o tempo todo. Ao menor suspiro, eu acordo. E tu te viras de barriguinha para cima e geme, é necessário levantar, ir ao teu quartinho e te colocar em uma posição confortável.
Quando vejo tuas fotos, me pergunto como pudeste crescer tanto e meus olhos não acompanharem. E tens só 4 meses e meio! Sofro ao imaginar que em algum momento não caberás mais no meus braços.
Às vezes me pego sem paciência. Me sinto a pior mãe do mundo. Queria ser melhor para ti.
Todas as decisões que tomei, especialmente em ficar contigo até fazeres um ano - por isso pedi demissão -, foi pensando em te dar o melhor. Mas eu me pergunto se estou conseguindo...
Às vezes me sinto sozinha demais. Às vezes queria que alguém se dispusesse a ficar contigo algumas horinhas para fazer as coisas que precisam ser feitas. Mas como, se estamos, de fato, muito sozinhos? Ao mesmo tempo que isto nos fortalece, nos enfraquece, pois reflete em esgotamento físico e mental.
Me preocupo se estás me manipulando, se ao chorares consegues o que queres porque não consigo mais te ouvir chorar, pois estou cansada... Ouço as pessoas dizerem para te deixar chorar, mas não consigo, estou no meu limite! Penso de que forma posso te ajudar a entender que é preciso esperar sem que isso resulte em uma guerra de nervos pois tu abres o berreiro, ficas vermelho como se tivessem te batido. És muito bravo! O que eu devo, realmente fazer?
Teu pai tem trabalhado muito e eu compreendo. Mas, ao mesmo tempo, isso tem redobrado a responsabilidade que tenho contigo, pois não tenho com quem dividir.
Às vezes escrever ajuda. Estou mais calma e, por incrível que pareça, minha maior vontade neste momento é ir no teu quartinho, te pegar no colo e te dizer o quanto te amo!
Perdoa esta tua mãe, filho... Eu te juro que me esforço para ser o melhor para ti, mas a cobrança que nós, mães, nos colocamos é tão grande que é fácil adoecer assim, pois tendemos a não reconhecer nossos limites.
Me sinto mais leve. As lágrimas que vieram em massa já se foram. Que Deus permita que amanhã eu acorde a mãe que tu mereces que eu seja.
Com todo amor do mundo,
Mamãe
OBS:
Por isso escrevo. E há quem acredite que isso é exposição da intimidade, de uma forma não salutar. Melhor seria, ao ver destas pessoas, que mães como eu enlouquecessem de vez o invés de recorrer a uma ferramenta como esta: dividir seus sentimentos com tão íntimos desconhecidos, que vivem a mesma ou semelhante realidade. Bom é que nem todo mundo pensa igual, e que os verdadeiros interessados se apoiam mutuamente.
E é por isso que agradeço a oportunidade de não ser julgada por aqueles que me lêem, pois já o faço arduamente sem que ninguém sequer se apresse em fazê-lo por mim.
C'est la vie.
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Cenas de uma realidade surreal
Cena 1 - no salão de beleza
-Oi, vim fazer as unhas.
-Ah, sim, por ali.
(depois de uma hora: pé esticado, uma mão na mão da manicure e outra embalando o carrinho)
- Ele tá choramingando por que está com fome.
-Não, ele mamou antes de sair de casa, ele tá é cansado.
-Sei bem por experiência própria, é fome. Quando minha filha tinha três meses, chorava muito, aí dei caldinho de feijão e ela dormiiiiiu feito um anjo. A partir dali, começou a comer que era uma beleza! Viu, aposto que seu leite é fraco.
(aqui, um sorriso amarelo com náusea como resposta, seguido de um olhar fulminante)
Conclusão: Transeuntes, manicures, cabeleireiras e afins sabem mais de nutrição infantil do que a Sociedade Brasileira de Pediatria.
Cena 2 - no mesmo ambiente
-Que linda sua filha!
-É menino, chama Rafael.
-É menino? Ah... ELA chora muito?
Conclusão: falta de bom senso é artigo raro.
Cena 3 - no mesmo ambiente (sim, durou uma eternidade)
(empurrando carrinho, de costas, por que Gato estava resmungando quando virado para mim. Entra uma louca, digo, mulher)
-Ah, não está funcionando você embalar, ele está com os olhos beeeem abertos.
-Não é para dormir, senhora.
-Se ficar embalando assim, ele vai ficar mimado. não está certo isso, com meus filhos... (blá, blá, blá, blá - 25 minutos de explicação referentes a como criar um filho perfeito)
-Ahã.
-E olha como ele balança os bracinhos, ele é bem nervoso. (leia-se, aqui, criança de três meses balançando os braços de acordo com as competências da etapa de seu desenvolvimento neuromotor) - (bonito isso, não?)
Conclusão: O conhecimento técnico de transeuntes, manicures e cabeleireiras não se esgota ou restringe: também sabem muito sobre desenvolvimento neuropsicomotor e comportamento.
Psicólogos, por que estudais?
Cena 4 - no cartório
(saindo da cerimônia de casamento civil de uma amiga querida)
-Olha que lindo o Rafael!
-É, amiga, viemos te ver e já estamos indo. Rafa está cansadinho, já, olha como está com sono!
(de repente vem uma mulher, do nada, convidada da noiva e coloca as DUAS MÃOS nos MEUS ombros)
-Pára!
-Como?
-Pára! Não balança ele. Não precisa ficar balançando assim.
(aqui, cara de choque e incredulidade. Viro para o pai do Gato, na mesma hora, dando as costas para a mulher)
-Isso aconteceu?
-É, releva. É louca.
-Moça, deixa eu segurar o bebê?
-Ele tá com sono, com licença. Vamos, amor?
(vácuo absoluto e necessário, e vamos embora)
Conclusão: não bastasse a educação e cuidado coms eu filho não lhe pertencer, seu corpo também passa a ser de domínio público.
Cena 5 - no elevador
-Bom dia.
-Bom dia.
-Qual andar?
-Térreo, obrigada.
-Que lindo!Como chama?
-Rafael.
-Oi, Rafael, vai tomar um solzinho?
-Pois é.
-De quem ele é?
-Como?
-De quem é esse bebê?
-Meu...
-Ah...
Conclusão: Mãe vestida de branco é confundida com babá. Não bastasse a indiscrição das pessoas, o juízo passa também pela vestimenta, categorizando as pessoas pela cor da roupa.
Sindicato de classe, fiscalizai!
---
Considerações finais: Paciência deveria ser comercializada sem retenção de receita. Melhor, onde quer que você fosse, deveria ter cápsulas à disposição, para você colocar na bolsa, na necessaire, onde fosse mais conveniente!
Imagine a sala de espera do dentista. Vem aquela senhora na sua direção com aquela mão cheia de dedos pra cima do seu filho. O que fazer? Quase nada! esticar a mão para aquele baleiro à sua direita que contém balinhas de paciência como cortesia. Tomou? Pronto, passou!Diga, há algo mais saudável para sua saúde mental? Melhor que uma bazuca, vai...
Com toda tolerância, jogo de cintura e heroísmo,
Mamãe.
-Oi, vim fazer as unhas.
-Ah, sim, por ali.
(depois de uma hora: pé esticado, uma mão na mão da manicure e outra embalando o carrinho)
- Ele tá choramingando por que está com fome.
-Não, ele mamou antes de sair de casa, ele tá é cansado.
-Sei bem por experiência própria, é fome. Quando minha filha tinha três meses, chorava muito, aí dei caldinho de feijão e ela dormiiiiiu feito um anjo. A partir dali, começou a comer que era uma beleza! Viu, aposto que seu leite é fraco.
(aqui, um sorriso amarelo com náusea como resposta, seguido de um olhar fulminante)
Conclusão: Transeuntes, manicures, cabeleireiras e afins sabem mais de nutrição infantil do que a Sociedade Brasileira de Pediatria.
Cena 2 - no mesmo ambiente
-Que linda sua filha!
-É menino, chama Rafael.
-É menino? Ah... ELA chora muito?
Conclusão: falta de bom senso é artigo raro.
Cena 3 - no mesmo ambiente (sim, durou uma eternidade)
(empurrando carrinho, de costas, por que Gato estava resmungando quando virado para mim. Entra uma louca, digo, mulher)
-Ah, não está funcionando você embalar, ele está com os olhos beeeem abertos.
-Não é para dormir, senhora.
-Se ficar embalando assim, ele vai ficar mimado. não está certo isso, com meus filhos... (blá, blá, blá, blá - 25 minutos de explicação referentes a como criar um filho perfeito)
-Ahã.
-E olha como ele balança os bracinhos, ele é bem nervoso. (leia-se, aqui, criança de três meses balançando os braços de acordo com as competências da etapa de seu desenvolvimento neuromotor) - (bonito isso, não?)
Conclusão: O conhecimento técnico de transeuntes, manicures e cabeleireiras não se esgota ou restringe: também sabem muito sobre desenvolvimento neuropsicomotor e comportamento.
Psicólogos, por que estudais?
Cena 4 - no cartório
(saindo da cerimônia de casamento civil de uma amiga querida)
-Olha que lindo o Rafael!
-É, amiga, viemos te ver e já estamos indo. Rafa está cansadinho, já, olha como está com sono!
(de repente vem uma mulher, do nada, convidada da noiva e coloca as DUAS MÃOS nos MEUS ombros)
-Pára!
-Como?
-Pára! Não balança ele. Não precisa ficar balançando assim.
(aqui, cara de choque e incredulidade. Viro para o pai do Gato, na mesma hora, dando as costas para a mulher)
-Isso aconteceu?
-É, releva. É louca.
-Moça, deixa eu segurar o bebê?
-Ele tá com sono, com licença. Vamos, amor?
(vácuo absoluto e necessário, e vamos embora)
Conclusão: não bastasse a educação e cuidado coms eu filho não lhe pertencer, seu corpo também passa a ser de domínio público.
Cena 5 - no elevador
-Bom dia.
-Bom dia.
-Qual andar?
-Térreo, obrigada.
-Que lindo!Como chama?
-Rafael.
-Oi, Rafael, vai tomar um solzinho?
-Pois é.
-De quem ele é?
-Como?
-De quem é esse bebê?
-Meu...
-Ah...
Conclusão: Mãe vestida de branco é confundida com babá. Não bastasse a indiscrição das pessoas, o juízo passa também pela vestimenta, categorizando as pessoas pela cor da roupa.
Sindicato de classe, fiscalizai!
---
Considerações finais: Paciência deveria ser comercializada sem retenção de receita. Melhor, onde quer que você fosse, deveria ter cápsulas à disposição, para você colocar na bolsa, na necessaire, onde fosse mais conveniente!
Imagine a sala de espera do dentista. Vem aquela senhora na sua direção com aquela mão cheia de dedos pra cima do seu filho. O que fazer? Quase nada! esticar a mão para aquele baleiro à sua direita que contém balinhas de paciência como cortesia. Tomou? Pronto, passou!Diga, há algo mais saudável para sua saúde mental? Melhor que uma bazuca, vai...
![]() |
| Dá uma aula de indiferença pra eles, filho! |
Mamãe.
Postado por
Ligiane
às
05:50
8
comentários
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