sábado, 5 de fevereiro de 2011

Filho, eis aqui tua mãe.

Filho,

Mamãe tem estado bastante absorvida pela fase final do mestrado. O tempo que sobra em relação aos teus cuidados tem sido dedicado inteiramente à esta pesquisa, por isso que não tenho mais vindo aqui. Mas está acabando, tudo vai voltar ao normal em seguida.

No entanto, não poderia deixar passar nem mais um dia, nesta urgência interna que grita dentro de mim.
Precisava vir registrar quem realmente é tua mãe. Talvez você se decepcione, mas é a mãe que tu tens.

Tu foste desejado desde os meus 14 anos. Te concebi aos 29, te tive aos 30.Tive quase 48 h de trabalho de parto e te pari por parto normal. Te amamento até hoje, aos teus 6 meses e meio de vida e pretendo ir adiante. Faço tuas papinhas. Até hoje, em teus seis meses, te crio sozinha, sem ajuda de ninguém além de teu pai. Parei de trabalhar pra cuidar de ti.

Bonito, feio? Super mãe, mãe de merda? Desculpe, filho, esta palavra é feia, mas já te disse que mães são seres humanos normais, comuns, que falam palavrão às vezes? Pois então, é a mais pura realidade.

Justamente sobre esta normalidade materna, sem super poderes, que vim escrever hoje. Temo que dentro da tua admiração natural de filho que ama os pais, possas esquecer um dia que somos de carne e osso. E que falhamos muito e erraremos ainda mais até que tu possas ter condições de avaliar isso com critérios de gente grande.

Mas está aqui, registrado. Tua mãe não é de ferro.

Eu te pari de parto normal porque eu quis, porque teu pai apoiou, porque a médica incentivou e porque a natureza permitiu. Não foi pra contar pra ninguém que eu sou forte, até porque, vou te te falar, acredito na força de outro jeito, na força simbólica das mães que não tem nada para dar de comer e tiram da sua boca para dar aos filhos, e não é o nosso caso, graças a Deus.

Eu te amamento porque eu quis, porque teu pai apoiou, porque a médica incentivou e porque a natureza permitiu.E por ser excelente para ti, lógico, mas foi um desafio que eu tomei para mim e venci. Desafio porque doeu muito no início, porque cansa, traz a sensação de privação de liberdade diante da necessidade de não se ausentar por mais de 2 horas de casa.
Atualmente ainda mamas de madrugada e eu canso demais, me arrasto até o teu quarto, quando não durmo sentada. Tem sido bem difícil seguir neste ritmo. Mas tenho juntado forças e estamos indo bem.

Faço as tuas papinhas. Tem dias que eu gosto de fazê-las, mas não me sinto segura para fazê-las sempre, porque nunca havia feito antes. Não sei combinar os legumes e fico receosa de misturar alguma coisa que te faça mal. Se eu pudesse, delegaria esta função à tua bivó, sem dó nem piedade, mas ela mora muito longe. Diga-se de passagem que aqui em casa a nossa alimentação não é nem de longe perfeita, temos nos cuidado em relação a isto por tua causa, pra te dar um exemplo mais adequado, mas não perfeito. Um dia tu vais tomar refrigerante, vai comer salgadinho. É a realidade do mundo que vamos te apresentar. Não vais viver um sonho cor-de-rosa, filho. Me desculpe.
Já te disse que a primeira papinha que te dei foi demais, pois até vomitaste? Mas tua mãe não sabia teu limite, e estavas tão feliz comendo tudinho! Perdoa?

Eu parei de trabalhar pra te cuidar. Uma escolha minha. Uma possibilidade nossa, minha e de teu pai. Se não pudéssemos, tu estarias hoje em um berçário, porque não temos nenhuma de tuas avós aqui para ajudar na tua criação. Porque se tivéssemos, mamãe quando voltasse a trabalhar te deixaria com a vovó. Sem culpa. Mas quando tiveres um ano vais entrar na escolinha, independente de eu estar trabalhando ou não. Porque acredito que é importante para ti socializar com outras crianças, aprender a dividir as coisas e também porque acredito que eu preciso ter mais momentos pra mim, seja trabalhando, descansando, o que for.

Eu te crio sozinha. Não temos babá. Em parte porque não podemos, em parte porque não encontramos uma pessoa que seja digna de confiança. Mas grande parte porque eu quis. Mas a grande parte que me fez querer mudou de ideia na medida que cresceste um pouco mais e exiges toda atenção do mundo e quase não dormes durante o dia. Mamãe queria um tempo pra descansar, tomar um sol e voltar feliz, inteira para brincar contigo.

Sabe o que acontece, filho? A culpa não é sua nem das pessoas de tua geração. É muito anterior a vocês. É de uma época em que a maternidade era tida como algo mágico, colorido, sublime e divino. E, em parte é, pois gerar uma vida é algo transcendental. Mas esqueceram de lembrar que mãe é gente, e que esta expectativa em torno de seu papel, de Ser perfeito, não colabora em nada. E sabe o que mais me entristece? Este duelo é travado especialmente entre mães. Tu consegues acreditar nisto? Ao invés de se unirem, estas mulheres maravilhosas se degladiam. Verdade, filho, nós, mães (nem todas, sejamos justos) apontamos o dedo um na cara da outra dizendo que a nossa experiência é a melhor. A mais correta, mais bonita. Depois do advento da internet, então, estas super mulheres escrevem à queima roupa, julgando umas às outras, ao invés de terem uma postura solidária. E eu sofro por ver isto acontecer...

Mas tem uma coisa que eu quero te lembrar, e desejo que fique acima de qualquer suspeita: fazemos o nosso melhor para ti. Sempre. E vamos te educar para que aprendas a não julgar as pessoas, pois cada uma faz o seu melhor, mesmo que nos pareça muito pouco ou o pior que podem dar.

E mesmo que sejamos assim, tão falhos, te amamos MUITO. Um amor inquestionável, imenso, forte, puro, amplo, terno. Por mais que sejamos fracos, às vezes, ou na maior parte das vezes, somos de verdade. Somos os pais que podemos ser para ti, sempre buscando melhorar, mas ainda sim, humanos.

Desejo que estas revelações não abalem teu amor por mim.

Com todo amor de mãe imperfeita,

Mamãe.