Filho,
Hoje faz uma semana que teu vovô nos deixou. Faz 7 dias que ele não está mais aqui conosco.
Teu vovô tinha um montão de problemas de saúde. E era muito teimoso. Decidiu viver a vida do jeito que ele queria - e ainda dizia: "prefiro viver a vida do jeito que eu quero e viver menos tempo do que viver muito me privando das coisas". E assim o fez. Diabético, teu vô não ouvia ninguém quando o assunto eram suas paixões: Pistache, Bubaloo, Eskibom, sorvete com nozes, Mentex, um bom vinho, uma boa comida. Festeiro como só ele, foi muito boêmio. Adorava reunir os amigos e sempre havia muita bebida e muita comida. Ao mesmo tempo que era muito bem quisto, era tímido, mas quem o conquistasse tinha seu lado generoso ao seu dispor. Amava ver a sua família reunida. Cresci ouvindo que nosso bem maior é a família. Ele inventava pretextos para ter todo mundo reunido: um almoço, um bom churrasco, um jantar...
Tenho lembranças maravilhosas e muito saudáveis da minha infância. Talvez seja aí que a falta dele me dói tanto, pois este pai brincalhão, crianceiro, não te verá crescer. Sempre gostou das crianças já numa fase maior, quando começam a falar e interagir com os adultos, de forma que ele pudesse dar e receber algo em troca. Na fase que o conheceste, ainda bebê, com pouco jeito te pegou no colo e se orgulhou do quanto eras parecido com ele. Olhava para ti e dizia: "engraçadinho, ele!" Era seu jeito de lidar com a tua fragilidade de gente pequena.
Meu pai, teu avô, brincava comigo e com minha sobrinha mais velha (temos 5 anos de diferença e crescemos juntas) articulando jogos, adivinhações e o que mais desse na telha. Amavamos viajar com ele, pois passavamos o trajeto todo em gincana. O maior barato! Ganhavamos dinheiro para ir às festas típicas aqui do RS: Oktoberfest, Festa da Uva, do Feijão, do que fosse. Aí nos divertíamos escolhendo os presentes para levar para casa. Tenho doces lembranças desta época.
Ele era um homem tão forte, tão decidido, tão voluntarioso, que teve épocas que eu tinha medo dele. Sua era voz imponente, quando gritava, me dava calafrio na espinha. Morria de medo quando ele fechava o semblante e levantava a voz... Mas o medo se transformou em respeito. Teu avô sempre foi um homem muito justo, muito correto, empreendedor, e brincavamos que tudo que ele tocava virava ouro - era um visionário. Admiro teu avô por traçar metas e seguir em frente, sem medo do que encontraria pelo caminho. Tão destemido e determinado que chegava a ser inflexível, genioso, turrão. Por dentro um homem carente, muito sensível.
Por isto tudo que eu carrego dentro de mim em relação ao que ele me deixou como exemplo para a vida, meu filho, eu desejo que herdes o que ele tinha de bom. Ainda vou te contar muitas histórias, muitas passagens dele para que tenhas dentro de ti um pouquinho do que ele foi para todos nós. E desejo que o legado de vida que ele deixou germine o teu coração de homem bom, honesto e generoso.
Como tu ainda és muito pequeno, não tens dimensão do que estamos vivendo. Mas eu sei que sentes estas mudanças todas. Não estamos na nossa casa, tu sentes a tristeza no olhar da mamãe e capta toda densidade do humor de todos nós. És uma pequena esponja e sentes tudo. Queria te poupar disto tudo, mas como bem falou teu papai, isso tudo faz parte da história da tua vida.
Sofro muito pelo vazio que teu vovô deixou. Pela poltrona vazia em que ele via TV, pelo silêncio, pelas roupas, pelas coisas dele que ficaram e que carregam muitas memórias. Temo por esquecer seu cheiro, sua voz, seu sorriso...Mas hoje consegui lembrar dele sorrindo, e é um grande passo.
Agradeço a Deus por tu o conheceres, mesmo que a convivência de vocês tenha sido breve. Para mim foi uma oportunidade especial poder te apresentar, meu filho, ao meu pai.
E ele vai, com toda certeza, nos acompanhar lá do céu. A minha estrela mais brilhante e iluminada tem um nome, e responde por Paulo Cesar.
Fica com Deus, Vovô Gato. A gente sempre vai te amar e te carregar com a gente, aonde quer que a vida nos leve e aconteça o que acontecer.
Com muito amor, saudade e pesar,
Mamãe.
Amiga, me arrepiei lendo seu texto!
ResponderExcluirCerteza que gato vai ter muitas "lembranças" boas do Vô-Gato, mesmo sendo elas passadas através de você.
Muita força.
Bjs e saudades
Ligi,que lindo...como conversamos pelo Twitter, tem 8 anos que perdi meu pai,teve vários derrames e também por ser teimoso relaxava com os remédios da pressão e adorava a comida bem salgada...
ResponderExcluirVou te dizer uma coisa, vc ñ vai esquecer nunca, eu outro dia fui no mercado e ao ver um homem que tem puxava da perna por conta das sequelas do AVC fiquei muito abalada,chorei tanto...lembrei de tudo o que passou e viveu...guardo as coisas que ele me ensinou, datilografar, amar a língua portuguesa, só ñ herdei o amor pelo Vasco(sou Flamenguista,rsrs)...Daniel tinha 6 meses e Suzana 2 anos,lembro que ela fazia massagem nas pernas dele e passava creme ou talco,temos muitas fotos dele com as crianças e muitas memórias boas...guarde tudo isso no seu coração,os bons exemplos e as alegrias vividas que vc nunca irá apagá-lo da memória.Grande bj,querida...
lindo nega. um beijo no coração de vcs dois. que logo, o brilho desses olhos lindos e expressivos de gatos volte. =) sei que voltará. =*
ResponderExcluirEstou aqui chorando, enquanto Dudu e Alice me olham e perguntam 'o que foi, mamãe?'
ResponderExcluirLindo texto, que só você com sua doçura poderia ter escrito...
Eu não sou um ser espiritualizado nem elevado e não entendo a morte, não aceito...
Por isso não consigo te falar palavras de consolo. Mas sinta-se abraçada, amiga.
\Amo muito vc!
Beijos
Calu